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Uma viagem com Jacildo e Seus Rapazes: o rock de Cuiabá nos anos 60

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Por Eduardo Ferreira

Publicação Original: Cidadão Cultura em 16/05/2016

www.cidadaocultura.com.br

 

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O carro desliza pelo asfalto sob o sol modorrento da Hell City, ou simplesmente Cuyabá. O som do carro faz expandir minha mente lerda e toca a viajar pelo tempo. Escuto a música da banda Jacildo e Seus Rapazes, me sentindo um Tarantino às avessas, pirando no velho Centro-Oeste brasileiro. Redescobrindo velhas e eternas sonoridades. Pinçando ali e aqui raridades que não podemos deixar escapar.

1966. Cuyabá ferve sob a febre rockn roll, de Beatles a Jacildo, passando pela Jovem Guarda, Twist, Iê iê iê, a guitarra elétrica começando a incendiar os pés da juventude transviada. A galera já batia cabeças na época. O mais puro rock n roll, trilhando um passado ainda recente.

Neurozito, que fazia parte da banda, guitarra base, tascou: “Jacildo me encontrou num show de uma banda formada por militares, éramos um conjunto como se dizia na época, ele queria fazer um som diferente, tinham acabado de chegar de Campo Grande e me convidaram.” Topou na hora e fizeram e aconteceram, tocaram muito, em São Paulo, na capital e no interior, levaram calote, conquistaram glórias. Fizeram muito som em festas e bailes.

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É incrível, minha filha exclama ao entrar no carro, esse som era feito em Cuiabá na década de 60? Respondo orgulhoso pela raridade que eu lhe mostrava: Sim, massa, não é?

O carro desce a avenida do CPA, o som transborda. Transporta a tarde que vai caindo devagar, sol vermelho, as sombras se erguem saudando a noite que se aproxima.

Jacildo queria voar alto, queria ir para a Califórnia, chegou às Guianas, foi à Venezuela, Acre, foi e voltou, morou em vários lugares, cidades, portos diferentes, um viajante, andarilho, deslocado, outsider. Califórnia era o nome da gravadora do primeiro disco de Jacildo e seus Rapazes, Lenha – Brasa e Bronca.

É uma brasa, mora! O disco foi um sucesso, pela primeira vez músicos de Cuiabá foram a São Paulo gravar um disco.

Caramba, vejo fotografias incríveis de alguns dos shows desses rapazes, no saudoso Cine Tropical, o melhor cinema da história de Cuiabá, um luxo, quem viu sabe do que estou falando; no Clube Feminino, atual sede da Secretaria municipal de Cultura de Cuiabá; programas ao vivo na Rádio Voz D’Oeste; no clube Dom Bosco, Clube Náutico em Várzea Grande, fotos com a velha Kombi na estrada para São Paulo indo gravar o disco.

Neurozito fala dos shows na época, da vibração da moçada, a euforia com aquele conjunto que mandava ver o iê iê iê, Beatles, Jovem Guarda, rock’n roll na essência. Abriram shows incríveis como o do Renato e seus Blues Caps, Roberto Carlos. Neurô relembra que o público vaiou Renato e Seus Blues Caps pedindo Jacildo e Seus Rapazes. Era a glória, a glória, diz sorrindo!

Sensação: deja vu.

O som não para. Jacildo consegue tirar solos e riffs incríveis em sua guitarra pré-distorção. Neurozito com um sorriso maroto diz que ele fazia isso sem pedal, sem artifícios, só a guitarra e o ampli. Imagino os amplificadores valvulados, esquentando a música em sons claros e cristalinos, com os sons fiéis aos instrumentos que comandam andamentos dançantes. Rebeldia juvenil, letras ingênuas, rock de salão. Jacildo e Seus Rapazes fizeram a festa nos anos de 1960.

“São Paulo parou” – composição de Jacildo

Cheguei devagarinho

Cheguei de mansinho

Levando a turma toda pra ali

Boneca fica em casa

A turma é uma brasa

Não saia nunca, nunca dali

Ié, ié ié…São Paulo parou

A turma toda grita

A garotada imita

Lenha, Brasa e Bronca tá ali

Comércio fecha a porta

A nós nada importa

Carango e calhambeque tá aqui

Ié, ié, ié…São Paulo parou

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